Sem pôr os pés no chão, Ivan Lins se confirma bamba ao seguir a própria cadência no álbum 'Sambadouro'

  • 29/07/2026
(Foto: Reprodução)
Ivan Lins regrava 11 sambas autorais e apresenta o inédito samba 'Maravilhado' no álbum 'Sambadouro' Barbara Furtado e Dantas Jr. / Divulgação Selo Sesc ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Sambadouro Artista: Ivan Lins Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Idealizado para festejar os 80 anos de Ivan Lins, completados em 16 de junho de 2025, o álbum “Sambadouro” foi anunciado como um disco nascido da intenção de aproximar o samba do compositor do universo dos pagodes cariocas. O artista chegou a dizer em entrevista que alimentava o sonho de ver os sambas dele tocados como se Ivan morasse em Madureira, bairro do subúrbio carioca, um dos celeiros do samba da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Entretanto, os três singles que antecederam o lançamento deste 46º álbum do cantor, compositor e pianista carioca – lançados entre fevereiro e junho com as gravações da música-título “Sambadouro” (Ivan Lins, 1992, com letra de Vitor Martins, 1993), de “Diplomação” (Ivan Lins e Celso Viáfora, 2001) e de “Deixa eu dizer” (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1973) – sinalizaram que, se a intenção era mesmo aquela, a tentativa seria infrutífera, ainda que “Diplomação” trouxesse Zeca Pagodinho, bamba portelense dos quintais do subúrbio do Rio de Janeiro (RJ). Nascido e criado na Tijuca, bairro situado em outra latitude da cidade, Ivan Lins sempre compôs samba, gênero recorrente na obra monumental do artista de atuais 81 anos. Basta lembrar que Ivan ganhou projeção nacional em 1970 com um samba, “Madalena”, parceria com Ronaldo Monteiro de Souza amplificada na voz de Elis Regina (1945 – 1982). Só que o samba do compositor sempre seguiu cadência própria, particular, e foi enquadrado no universo da MPB por questão gerancional e por ter influências de bossa nova, soul e jazz. Sintomaticamente, o álbum “Sambadouro” – gravado em maio de 2025, no estúdio carioca Cia. dos Técnicos, com produção de Marcus Fernando e com arranjos divididos entre Carlinhos Sete Cordas, Paulão Sete Cordas e Rafael dos Anjos – chegou ao mercado fonográfico na última sexta-feira, 24 de julho, com discurso que omite a alardeada intenção do artista de se ambientar nos pagodes cariocas. Melhor assim, pois o samba de Ivan Lins atravessa o Rio ao longo de “Sambadouro” – em conexões com bambas cariocas como Ferrugem (na já mencionada faixa “Deixa eu dizer”), Diogo Nogueira, Mart'nália e Xande de Pilares, além do supracitado Zeca Pagodinho – sem tirar o artista do lugar de honra em que Ivan se situa no panteão da MPB. Sob o prisma da realocação, a gravação que mais aproxima o samba de Ivan do pagode é “Saravá" Saravá!” (2004), parceria com Martinho da Vila lançada em álbum dedicado por Simone ao cancioneiro de Ivan Lins (“Baiana da gema”) e ora rebobinada por Ivan com Xande de Pilares, bamba do pagode dos anos 1990. Ivan Lins regrava grandes e pouco conhecidos sambas como 'Parei contigo' e 'Porta entreaberta' no álbum 'Sambadouro' Barbara Furtado e Dantas Jr. / Divulgação Selo Sesc Em essência, contudo, Ivan Lins não põe os pés no chão e faz do álbum “Sambadouro” um ótimo compilado de sambas da obra, revividos em gravações inéditas. Como os álbuns mais recentes do cantor surtiram pouco efeito comercial, por conta das guinadas do mercado musical no século XXI, é provável que sambas como “Nosso samba já é um país” (Ivan Lins e Vitor Martins, 2015) e “Prece ao samba” (Ivan Lins e Nei Lopes, 2006) – pérola em tom menor com letra em que o parceiro Nei Lopes dialoga com a “Oração de São Francisco” – soem até como inéditos para ouvidos menos atentos ao desenvolvimento da discografia de Ivan Lins. De toda forma, a rigor, de inédito mesmo, há somente um entre os 12 sambas do álbum, “Maravilhado”, parceria com Ronaldo Monteiro de Souza que faz jus ao título, soando como maravilha contemporânea. Com batucada aliciante, o samba “Maravilhado” está alocado no fecho do disco, também lançado pelo Selo Sesc no formato físico de CD, convidando o ouvinte a seguir o bloco de Ivan Lins. Antes de “Maravilhado”, vem outra faixa sobressalente no álbum, “Sou eu” (2009), cujo sentido da letra original do parceiro de Ivan, Chico Buarque, é deliciosamente subvertido ao ser cantado por Mart'nália, artista assumidamente lésbica. E aqui cabe um parêntesis para lembrar que Simone queria lançar o samba, mas Chico deu a primazia para Diogo Nogueira. Curiosamente, Diogo Nogueira também figura em “Sambadouro” como convidado de Ivan na regravação do samba “Porta entreaberta” (Ivan Lins e Paulo César Pinheiro, 2004), grande samba que merecia a segunda chance que ganhou em “Sambadouro”. Um pouco mais antigo, “É de Deus” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1995) desliza macio no salão de uma gafieira, soprado pelos metais. Vale ressaltar que todos os sete feats do álbum soam apropriados. Uma das vozes mais potentes do pagode dos anos 1990 e único convidado egresso do universo do pagode de São Paulo (SP), Péricles se afina com o anfitrião do álbum no canto suave de “Não tem perdão” (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1973), outra joia rara do cancioneiro de Ivan Lins. “Não tem perdão” é composição apresentada na voz sagaz de Leny Andrade (1943 – 2023), cantora vocacionada para cair no samba do compositor. Com capa que expõe arte criada com inspiração na única foto da casa de Hilária Batista de Almeida (1854 – 1924), a Tia Ciata, matriarca ativista do samba carioca, o álbum “Sambadouro” também traz o bandolinista carioca Hamilton de Holanda, convidado de Ivan Lins no revival de “Parei contigo” (2004), samba que dialoga com os sambas da obra de Baden Powell (1937 – 2000) com Paulo César Pinheiro, parceiro letrista de Ivan nesse samba lançado por Simone no já mencionado álbum “Baiana da gema” (2004). Tudo se afinou na faixa porque o toque enérgico do bandolim de Hamilton simboliza o violão de Baden. Enfim, seja evocando Baden, seja referenciando Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), farol do compositor desde que o samba é samba, seja tentando uma aproximação com o universo do pagode carioca sem efetivamente pôr os pés no chão, Ivan Lins se confirma bamba no mosaico de sambas do álbum “Sambadouro”. Capa do álbum 'Sambadouro', de Ivan Lins Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/07/29/sem-por-os-pes-no-chao-ivan-lins-se-confirma-bamba-ao-seguir-a-propria-cadencia-no-album-sambadouro.ghtml


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