É bonito de se ver o show em que Dori Caymmi canta e honra a própria família

  • 12/08/2026
(Foto: Reprodução)
Dori Caymmi apresenta o show 'Em família' no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), ao longo das terças-feiras de agosto Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Dori Caymmi em família Artista: Dori Caymmi Data e local: 11 de agosto de 2026 no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ “Ficou bonito, mas é estranho”, avaliou Dori Caymmi ao fim do número em que cantou “Andança” (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, 1968) – o maior sucesso do cancioneiro do irmão caçula Danilo – em andamento classificado pelo próprio Dori como “deprimente”. Com humor demolidor, o cantor, compositor e violonista carioca já tinha usado o mesmo adjetivo “deprimente” para qualificar a abordagem jazzy do samba-exaltação “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso, 1939) com que abriu na noite de ontem, 11 de agosto, o show que o trouxe de volta ao palco do Teatro Ipanema quatro meses após ter participado do projeto “Terças no Ipanema”, orquestrado com curadoria de Flávia Souza Lima. Se Dori se apresentou sozinho com o próprio violão na temporada de abril, o artista agora divide o palco com virtuoso trio formado por Itamar Assiere (assombroso ao piano que muitas vezes valeu por uma orquestra), Jorge Helder (baixo) e Jurim Moreira (bateria) ao longo de quatro apresentações agendadas para as terças-feiras deste mês de agosto de 2026. O título do show também é outro, “Dori Caymmi em família”. Para amenizar o clima de déjà vu, o show tem como mote homenagens do artista ao pai, um certo gênio Dorival Caymmi (1914 – 2008), e aos irmãos Danilo Caymmi e Nana Caymmi (1941 – 2025). Não fosse por medley com singelas cantigas compostas por Nana na infância, por volta dos sete anos, o set em tributo à irmã teria soado sem novidade, pois Dori já cantou em abril o samba-canção “Se queres saber” (Peter Pan, 1947) e o bolero “Resposta ao tempo” (Cristovão Bastos e Aldir Blanc, 1998), grandes sucessos dessa cantora magistral que Dori soube trazer para o próprio universo com absoluto respeito às composições. Como Dori também sempre cantou Dorival Caymmi, lembrado com “João Valentão” (1953) e com os sambas “Acontece que eu sou baiano” (1944) e “Você já foi à Bahia?” (1941), a grande novidade do show foi a incursão de Dori pelo repertório do irmão Danilo. Única parceria de Danilo Caymmi com Hermínio Bello de Carvalho, apresentada na voz de Nana Caymmi no álbum “Mudança dos ventos” (1980), “Rama de nuvens” pareceu talhada para o canto denso de Dori. Bela canção que marcou pico de popularidade na trajetória de Danilo Caymmi como cantor por ter sido incluída na série “Riacho doce” (1990), sendo parceria do artista com Dudu Falcão, “O bem e o mal” (1990) soou como encanto doce na voz de Dori. Ficou bonito, e não ficou estranho... Dori Caymmi se apresenta com o pianista Itamar Assiere, o baterista Jurim Moreira e o baixista Jorge Helder no projeto 'Terças no Ipanema' Rodrigo Goffredo E o que foi mesmo bonito de se ver, beirando o sublime, foi o canto de “Quebra-mar” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2009) com o trio tocando magistralmente um arranjo que evoca sons de ondas quebrando na praia e do vento estremecendo a vela da jangada na tela azul do mar. Aliás e a propósito, Dori Caymmi nem precisa cantar Dorival para celebrar o pai porque a própria obra singular de Dori já é, em si, uma grande homenagem ao patriarca dessa dinastia que desbravou mares habitados por três gerações da família, já que Alice Caymmi, sobrinha de Dori, corre o Brasil neste ano de 2026 com show em que traz a correnteza de Dorival para a praia do século XXI. Em apresentação marcada pela devoção ao clã, fez todo sentido Dori dar voz à canção “Delicadeza” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2009), composta sob a emoção da perda quase simultânea dos pais, já que Dorival Caymmi e Stella Maris (1922 – 2008) partiram com intervalo de 11 dias, como Dori contou ao público que lotou o Teatro Ipanema. Infelizmente, o brilho do show foi (um pouco) empanado na parte final por um problema humano no toque do violão que deixou o artista visivelmente desconfortável com a própria performance instrumental. “A mão esquerda engasgou”, sintetizou Dori, que, violão à parte, já mostrara certa dificuldade vocal para acompanhar o passo ágil do frevo “Ninho de vespa” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1990), número no qual o trio deu show de entrosamento. Ainda assim, sem poder tocar o violão que gostaria de tocar, Dori presenteou a plateia com envolvente abordagem de “Desenredo” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1976), canção lançada há 50 anos na voz de Nana Caymmi antes de virar emblema do repertório do próprio Dori. Na sequência, Dori então chegou a “Porto” (1975) – tema composto pelo artista e gravado pelo grupo MPB4 para a novela “Gabriela” (TV Globo) – e, no bis, sem sair do palco pela dificuldade de locomoção, cantou outra obra-prima, “Rio Amazonas” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1990), tema caudaloso que mostrou, mais uma vez, como Dori Caymmi vem honrando o pai na própria praia. “Rio Amazonas” encerraria o show, mas cantor e banda puxaram “Canção da partida” (1957), tema da suíte “Histórias de pescadores”, e o show terminou com a plateia cantando sozinha os versos da canção enquanto os músicos se retiravam de cena e as cortinas fechavam. Entre refinados números “deprimentes” ou “estranhos” e entre canções entoadas com a encorpada “voz de mágoa”, Dori Caymmi fez um show bonito de se ver em homenagem a uma família musical da qual ele próprio faz parte, merecendo todas as reverências. Dori Caymmi canta músicas como 'Andança', 'Rama de nuvens', 'Se queres saber', 'João Valentão' e 'Desenredo' no show 'Em família' Rodrigo Goffredo

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/08/12/e-bonito-de-se-ver-o-show-em-que-dori-caymmi-canta-e-honra-a-propria-familia.ghtml


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